História do Grande Hotel de Araxá: o cassino e a Seleção
A história do Grande Hotel: construção, arquitetura Art Déco, cassino, visitas ilustres e reconhecimento como patrimônio tombado de Minas Gerais.
A história do Grande Hotel de Araxá atravessa décadas, presidentes, campeões do mundo e transformações profundas que ainda hoje moldam a identidade turística de Minas Gerais.
No coração do Triângulo Mineiro, uma construção monumental em meio à vegetação do Barreiro de Araxá.
Desde a construção nos anos 1930, a arquitetura Art Déco impressiona até hoje.
Os anos de cassino, as visitas ilustres e o papel do hotel como patrimônio tombado do estado, o hotel continua no topo dos roteiros de turismo termal do país.
Qual é a história do Grande Hotel Termas de Araxá?
A história do Grande Hotel de Araxá começa com a descoberta do potencial terapêutico das águas da região.
Desde o início do século XIX, viajantes relatam os benefícios das fontes sulfurosas e radioativas do Barreiro, e essa fama transforma Araxá em uma estância hidromineral procurada por doentes, curiosos e autoridades de todo o Brasil.
Com o avanço dos estudos sobre as propriedades terapêuticas das águas, o poder público mineiro decide investir em uma estrutura à altura da fama das fontes.
Antes mesmo do Grande Hotel, quem representa esse primeiro boom turístico é o Hotel Rádio.
Inaugurado em 1919, o hotel recebe a elite mineira e se torna point de personalidades ilustres até sofrer um incêndio na década de 1940.
Essas ruínas hoje estão preservadas dentro do Complexo do Barreiro.
Nasce assim, o projeto de um grande complexo de lazer e saúde, capaz de unir hospedagem de luxo, tratamentos termais e entretenimento em um só local.
Esse empreendimento recebe o nome de Grande Hotel Termas de Araxá e se torna, ao longo do século XX, um dos maiores símbolos do turismo termal em Minas Gerais.
A região também guarda a memória de Dona Beja, figura histórica do século XIX que ganha notoriedade e influência política na cidade e cujo nome batiza uma das fontes mais conhecidas do Barreiro.
Quando o Grande Hotel de Araxá foi construído e inaugurado?
As obras começaram em 1938, em meio a um terreno pantanoso que exigia soluções de engenharia pouco comuns para a época: as estacas afundavam constantemente no solo lamacento do Barreiro.
Cerca de 500 operários chegam a trabalhar simultaneamente no canteiro.
Só seis anos depois do início das obras, em 1944, o Grande Hotel finalmente recebe seus primeiros hóspedes, já em pleno período do Estado Novo.
A data marca um momento simbólico para o país.
O governo federal enxergava no Grande Hotel uma vitrine de progresso e modernidade, capaz de projetar Minas Gerais e o Brasil no cenário internacional.
Por isso, muita gente ainda pergunta quando o Grande Hotel de Araxá inaugurou e recebe a mesma resposta: 1944, dois anos depois da abertura oficial das termas do Barreiro.
A história do Grande Hotel de Araxá em uma linha do tempo

A arquitetura do Grande Hotel: Art Déco e inspiração termal europeia
O projeto arquitetônico carrega a assinatura de Luiz Signorelli.
Ele bucou inspiração nas antigas casas de banho romanas e nos grandes hotéis termais europeus para desenhar um edifício monumental.
A fachada mistura traços neoclássicos com elementos de Art Déco, estilo que domina a arquitetura de luxo nas décadas de 1930 e 1940 e reforça a ideia de modernidade que o governo queria transmitir.
Colunas grandiosas, capitéis trabalhados, arcos internos e um piso em mármore de Carrara compõem os salões principais.

Do térreo ao topo da fachada, a construção soma nove pisos e cerca de 27 metros de altura, um marco de engenharia para a época.
Uma galeria suspensa liga o hotel diretamente ao prédio das termas e desemboca em uma rotunda de 17 metros de altura, onde vitrais narram a história de Araxá e do Barreiro antes de dar acesso aos banhos.
Ambientes como a biblioteca, com móveis de couro originais, e a Sala Congonhas, antigo escritório usado por Getúlio Vargas, permanecem praticamente intactos até hoje.
Os jardins ficaram a cargo de Roberto Burle Marx, que projetou uma área verde exuberante e integrou a paisagem natural do Barreiro ao desenho arquitetônico do hotel.
O paisagista chega até a assinar pinturas originais que decoram a suíte presidencial.
Essa combinação entre arquitetura imponente e paisagismo assinado por Burle Marx transforma o Grande Hotel em referência de bem-estar e de design para todo o Brasil.
Quando o Grande Hotel foi um cassino
Em 1944, o Grande Hotel de Araxá abre as portas como um dos primeiros cassinos do país construídos dentro de um grande complexo de lazer, já projetado desde o início com esse propósito.
O espaço reúne salão de jogos, restaurantes, bares e um cinema, e rapidamente vira palco de festas memoráveis, com direito a apresentações de artistas como Carmen Miranda.
Essa fase, porém, dura pouco tempo.
Em 1946, o presidente Eurico Gaspar Dutra proíbe o funcionamento de cassinos em todo o território nacional, e o hotel precisou encerrar essa atividade apenas dois anos depois da inauguração.
As personalidades que passaram por Araxá
Poucos hotéis brasileiros reúnem uma galeria de visitantes tão diversa quanto o Grande Hotel de Araxá.
Getúlio Vargas participou ativamente da idealização e da construção do complexo, hospedou-se ali diversas vezes e contava com um apartamento e uma sala de reuniões adaptados sob medida para sua baixa estatura.
O governador mineiro Benedito Valadares, parceiro direto do projeto, manteve um espaço reservado para receber o presidente durante as visitas às termas.
O hotel também recebeu nomes como Santos Dumont ao longo das décadas.
A música brasileira também deixou sua marca por lá. Em 1985, o Grande Hotel sediou o 1º Encontro de Música Popular Brasileira.
O evento, que reuniu mais de 100 artistas, foi promovido por Fernando Brant e Gonzaguinha para discutir as reivindicações e sugestões da categoria em relação à indústria fonográfica.
O hotel esteve lá junto com outros grandes nomes, como Gilberto Gil, Fernando Brant, Toninho Horta e Beth Carvalho.

Porém, os episódios que mais marcaram a memória popular foram as concentrações da Seleção Brasileira de futebol.
Em 1950, o técnico Flávio Costa levou os jogadores para 32 dias de treinos e tratamentos termais em Araxá, na preparação para a Copa do Mundo daquele ano.
Infelizmente a competição terminou com a derrota para o Uruguai na final, o famoso "Maracanaço".

Oito anos depois, a Seleção volta a se concentrar no local.
Agora com um jovem de 17 anos chamado Pelé no elenco, rumo à conquista do primeiro título mundial do Brasil, na Suécia.
Esses episódios aproximam o hotel do imaginário esportivo nacional e explicam boa parte do fascínio que ele desperta em visitantes apaixonados por futebol e por história.
Um patrimônio tombado de Minas Gerais
Diante de tamanha relevância histórica, arquitetônica e cultural, o Grande Hotel recebe o reconhecimento de patrimônio tombado pelo IEPHA-MG, o Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais.
O título protege as características originais do edifício, dos jardins assinados por Burle Marx e do conjunto arquitetônico projetado por Luiz Signorelli.
Assim, garante que reformas e ampliações respeitem a identidade construída ao longo de décadas.
Esse tombamento abrange todo o Complexo do Barreiro.
Uma área de 450 mil metros quadrados que reúne o Grande Hotel, o prédio das termas, a Fonte Andrade Júnior, a Fonte Dona Beja, a Capela de Nossa Senhora das Graças e as ruínas do antigo Hotel Rádio.
Juntas, essas estruturas formam o que hoje se descreve como um Complexo Hidrotermal e Hoteleiro, uma única unidade de interesse público que combina hospedagem, saúde e memória histórica.
A preservação garante que gerações futuras continuem tendo acesso a esse pedaço da memória mineira, ao mesmo tempo em que sustenta o desenvolvimento do turismo termal na região.
O Grande Hotel hoje: tradição preservada pelo Grupo Tauá
Depois de décadas de altos e baixos, o hotel fechou as portas em 1994, atingido por problemas estruturais e financeiros.
As termas reabrem primeiro, em 1997, e reaquecem o turismo local.
Porém, o hotel só voltou a receber hóspedes em 2001, já sob gestão privada e em processo de reestruturação.
Em 2010, o Grupo Tauá de Hotéis e Resorts assume a administração e inicia um ciclo de investimentos que devolve ao espaço parte do brilho das décadas de ouro.
Hoje, o Grupo Tauá mantém o propósito original do complexo: unir bem-estar, tratamentos e experiências memoráveis, sem abrir mão da simplicidade e da identidade araxaense.
As águas termais continuam no centro da experiência, com banhos, massagens e tratamentos estéticos que atraem quem busca descanso aliado à história.
Passeios guiados levam hóspedes até os antigos apartamentos de Getúlio Vargas e Benedito Valadares, hoje abertos à visitação, reforçando o compromisso do hotel com a memória que o transformou em símbolo de Minas Gerais.
A história do Grande Hotel Termas de Araxá vai além da construção de um hotel, pois reúne patrimônio, arquitetura, bem-estar e personagens que ajudaram a construir parte da memória de Minas Gerais e do Brasil.
Das águas termais que deram origem ao Complexo do Barreiro aos salões que receberam presidentes, artistas e a Seleção Brasileira, cada espaço preserva um capítulo dessa trajetória e mantém viva uma tradição que atravessa gerações.
Hoje, sob a administração do Grupo Tauá, o Grande Hotel continua honrando esse legado ao oferecer uma experiência que combina história, conforto, gastronomia, natureza e o reconhecido poder terapêutico das águas termais.
Prova de que uma boa história, assim como uma boa água termal, só fica mais rica com o tempo.
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